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Eventos universitários ou como irritar estudantes sem fazer esforço

Nunca tive uma participação efetiva em movimentos estudantis, CAs, DCE, UJS, UNE, Sindicatos, nem nada. E todo aquele bafafá característico, de fulano de tal partido que brigou com outro cara da oposição, também nunca me interessou. A verdade é que a falta de interesse sempre esteve relacionada ao fato de praticamente TER que morar na faculdade, participar de reuniões, faltar aulas em prol do movimento e não sei mais o que. Tudo bem, faltar aulas é comigo, mas é pra ficar no conforto do meu lar. Quando tinha sofá e poltrona no centro acadêmico até dava pra esticar a estadia por umas horas, apesar do perigo de pegar uma DST ao sentar de saias nas referidas mobílias. Mas agora que tudo virou um ‘grande pequeno’ cômodo vazio nem tem mais graça. Claro, tem o DCE, outro lugar com sofás bem confortáveis, o problema são as mil pessoas que transitam por ali, chamam alguém, toca o telefone, querem usar a internet – é, coisa chique o negócio lá -, Regina Casé chega (juro, gente. Aí disseram que é porque a filha dela estuda lá. Peraí, eu estudo lá e minha mãe nunca nem chegou perto da entrada), nêgo do partido x quer bater boca com o do partido y, enfim, uma zona.

A mudança aconteceu quando percebi que nessa atmosfera política tem muito barraco também e, principalmente, que nada tem a ver com partidos. Encontro da UNE pra discutir Reforma Universitária? Cês tão é por fora, nêgo vai é pra fazer pegação, arrumar confusão com o/a namorado/a dos outros, um programa do Ratinho que só vendo. Comecei a me interessar pelas histórias, a defender ou a criticar pessoas que nem conheço, rir das confusão e puf, tô meio que dentro disso, só observando, por enquanto.

Na verdade, tudo isso é pra falar que hoje ouvi uma das conversas mais engraçadas dos últimos anos, que precisa ser contextualizada antes: minha faculdade promove um evento Hollywoodiano style pra oferecer vagas de estágio pros estudantes. Por estudantes você pode entender apenas os dos cursos mais pops, nós, a galera baixa renda, não estamos incluídos. Então lá tem a Coca-Cola, Rede Globo, Souza Cruz, Vale do Rio Doce e mais trocentas empresas sedentas por um sangue escravo novo. Durante esse período, os funcionários da faculdade aproveitam o grande número de pessoas desesperadas por um emprego, que estacionam seus carros no meio da rua, que entopem qualquer cantinho, que atrapalham a vida do estudante que só quer seguir pra sua aula em paz… enfim, os funcionários aproveitam pra vender suas coisinhas, os alunos dos CAs aproveitam pra fazer exposições fotográficas e de pinturas, recitar poesias, todo esse lance “alternativão”.

Aí que esse ano o reitor (que a fala nunca se faz entender, dada a idade avançada), disse que não quer de saber de assunto, não libera esse evento paralelo, que quer as atenções do RJTV só pra ele e pra sua superprodução. E disse a seguinte pérola, que todo mundo entendeu: “Eu prefiro que joguem galinhas no stand da Globo a liberar esse evento de vocês”, HAHAHAHAHAHA. Sério. Saí de lá ouvindo rumores de galinhas à solta em plena quinta à tarde, correndo no meio da multidão.

são paulo – pt 1

aí que eu fui em busca de novos ares e pessoas na locomotiva do Brasil capital com sotaque mais irritante do país. decidi passar 6 horas dentro de um ônibus porque estou em pânico por causa do caos aéreo. é mentira, claro, o preço das passagens de avião estava altíssimo e eu que sou pobre tive que ir de busão mesmo. como não dispenso um mínimo de glamour, fui de classe executiva. a morraquisse se manifestou antes mesmo do ônibus chegar na novo rio, com tanto espaço lá fora e eu fui me acomodar na salinha vip pros clientes executivos, usar o banheiro limpo e cheiroso e beber café de graça. dá licença, hein. depois uma moça anunciou no microfone que os passageiros da 1001 com destino à São Paulo se apressassem que a carroça ia sair. tive dificuldades pra sair da salinha com a mala, já que todas as malas da malalândia estavam na minha frente. saí aos trancos e barrancos, deixando alguns olhares tortos pra trás, mas tudo bem, tô indo pra São Paulo, que coisa linda. já me imaginava andando pela Av. Paulista, cabelos esvoaçantes, carros passando, pessoas arrumadas e bonitas. nessa hora esqueci do tempo de viagem, já que pra uma pessoa como eu viajar mais de 2 horas é um suplício, mas assumo que a classe executiva amenizou os estragos (vou falar da classe executiva até morrer).

antes de entrar no ônibus fui recebida por um rapaz muito simpático, que pegou minha mala, me emprestou uma caneta e deu o jornal, lanchinho e suco. fui em direção à minha poltrona imaginando quem sentaria do meu lado, se seria homem ou mulher, se teria problemas com apnéia, se puxaria assunto ou passaria as 6 horas ouvindo música ou lendo alguma coisa. só que eu não contava com a melhor das possibilidades: a poltrona do lado não foi vendida, então pude ir super largada nos dois bancos. como sou assim, ousada, não tomei dramin pra capotar, resolvi encarar limpa essa viagem, levei mp3 – que tinha acabado a pilha e eu não levei uma reserva, hahaha – e livro. o motorista avisou que faríamos uma parada de 20 minutos em Resende e deu partida. o ônibus era super confortável (já falei que era classe executiva?), dava pra deitar a poltrona, esticar as pernas, tinha cobertor e deveria ter travesseiro, que a mulher lá disse que esqueceram de colocar. me senti lesada, mas como sou fina, não disse nada. a viagem até Resende passou rápido, fui lendo a Folha de São Paulo e comendo o lanchinho. nas poltronas do lado estavam duas mães com seus filhos, um filho era peste e a mãe legal, e o outro era fofo e a mãe prepotente. tanto que essa mãe prepotente tava colocando o jornal dela no meu banco e sem pedir. não no meu, onde eu estava sentada, mas no banco do lado, que por direito, era meu. tudo bem que não paguei por ele, mas não tenho culpa se não compraram e se ela quis sentar do lado do filho e não ficou com dois.

após ser assaltada no Graal de Resende, pagando R$10 por menos de 200g de comida, fui procurar uma farmácia pra comprar dramin ou um lugar pra comprar pilhas e, opa, outra tentativa de assalto. voltei pro ônibus de mãos abanando e desejando dormir mais do que nunca. recomeçamos a viagem e em um certo momento, peguei no sono, não sei como. devo ter dormindo umas 2 horas e acordei porque comecei a ouvir uma voz de criança fazendo “aaaaaaaaaa”. sabe aquele ‘aaaa’ mantendo o tom? e sem parar? que você fica admirada porque a peste não cansa, nem engasga, nem morre de falta de ar? então, assim. aí ouvi uns três “shiiiii”, que acho que eram pessoas aleatórias tentando dormir e a criança eterna no seu “aaaaaa”. o impressionante é que não sei de onde surgiu aquele projeto de gente ou se ele estava devidamente dopado até Resende. aí no almoço deram açúcar pra ele e foi o que foi.

bom, não consegui dormir mais e às 5 da tarde chegamos em Guarulhos e eu já em pé. senti que tava chegando porque pegamos um leve engarrafamento característico e as pessoas (que deviam conhecer o lugar) estavam se ajeitando. daí foi mais uma hora pra chegar na rodoviária Tietê, onde eu pegaria um metrô até meu lar do final de semana. na hora de pegar as malas, mais enrolação, aquela mãe prepotente, cheia de pressa, estava praticamente dentro no bagageiro, enquanto todos os passageiros normais aguardavam a retirada das malas civilizadamente. consegui resgatar a minha e ainda fiquei presa por uma senhora que não se movia, apesar de meus apelos de “com licença”. finalmente cheguei em São Paulo e vi o que é o caos às 6 da tarde na cidade.

minha aaalma caaaaanta, veeejo o rio de janeeeeiro

aí que começaram os jogos pan-americanos. não vi a cerimônia de abertura mas, juro, tentei. assim que Elza Soares entrou no palco (é, bem no começo), não agüentei e fui ver CSI, Two and Half Men, Friends. deu pra dar uma acompanhada pelos blogs, que também estavam bem divididos, gente sacaneando e gente dizendo que foi lindo, que se emocionou. posso falar? se emocionar com isso é mei’foda. sei lá, eu acho, ainda mais pela tv. se eu fosse uma das bailarinas saltitantes com anfetamina no rabo, tudo bem, nossa, que emoção esse maracanã cheio, hein. como não era, nems. mas também talvez seja pela falta de paciência que tenho em acompanhar essas coisas sozinha. porque, confesso, tentei organizar a galere pra ver essa ‘coisa de velho’, como foi denominada, só que as pessoas não se mostraram interessadas. por que será?

só que eu realmente gosto de ver esses eventos pra análise antropológica, sabe? então, observar as diversas formas fisícas presentes no mundo (nesse caso, na américa), como se comportam os homens canadenses quando comparados aos brasileiros, ver como o esporte pode transformar vidas e pernas dos jogadores do vôlei, essas coisas. sou quase uma antropóloga, gente. o bom é que a cidade tá cheia de turistas e eu fiz promessa pra ver se arrumo um canadense. treinar o inglês, sabe como é.

o problema nisso tudo é a quantidade de gente pelas ruas. de gente, de policiais, de metralhadoras, de sirenes, de argentinos. não, não tenho nada contra os hermanos, inclusive já passei um reveillon maravilhoso acompanhada por dois carihas argentinos que conhecemos na praia, enfim, tenho nada contra, acontece que eles são muito porcos e barulhentos. e as crianças são mal-educadas, esperneiam e gritam e pedem as coisas com as mãozinhas sujas.

outro problema: é preciso se organizar se quiser sair de casa. eu, que pra estar ali do lado às 18h preciso começar a me arrumar às 16h, tô sofrendo. tipos, ir pra tijuca em dia de jogo (ou seja, todo dia) no maracanã ou maracanãzinho? só três horas antes ou durante a competição. quer voltar pra casa da barra? senta e espera os ônibus lotadíssimos vindo lá do rio centro, e por assim. o duro é lembrar que estamos apenas no segundo dia e isso vai até dia? não sei o dia, sei que é no final de julho. mas, pra mim, já deu, gente. vai, volta todo mundo pra casa.

hein?

gente.

sério.

eu já disse isso uma vez, mas preciso repetir: só.pode.ser.o.inverno. não entendo o que acontece com as pessoas nessa época, só pode ser o frio estimulando a vontade de procurar desesperadamente um cobertor de orelha. e pior, antes fosse um revival digno, mas não. um cara nada a ver que você teve aquele rolo mais nada a ver ainda, em uma fase louca da vida, resolve como que por mágica falar com você na rua. tudo bem, não sou tão antipática ao ponto de passar e nem cumprimentar, mas precisa parar pra puxar assunto? dizer que ‘precisamos conversar coisas que ficaram pendentes’? que coisas, cara pálida?

não, eu não concordo com esse lance de que figurinha repetida não completa álbum, se rolar de ficar com algum ex, fico mesmo, sem problemas. e essas oportunidades geralmente surgem quando a mágoa do fim já passou, os mal-entendidos ou já foram resolvidos ou já foram esquecidos, logo, não nos faz mal. só que, não é porque é ex que tem que rolar, né? ainda mais depois de três anos, nunca mais vi o fulano, não tem sentido.

tô indignada.

duas e meia da tarde

eu sempre penso que quando tem alguma coisa errada, não adianta, outras coisas erradas virão. e talvez a palavra chave do final de semana tenha sido essa, erro. nunca tivemos problemas com a equação: jovens amigos solteiros em busca de prazer + viagem + bebedeira, só que o ebó dessa vez foi forte e deu no que deu. na verdade, não é isso que quero contar, e sim sobre um episódio ocorrido dentro do ônibus 234, após duas horas de viagem de miguel pereira até o rio, puta da vida, sem dormir, sem comer, enjoada, e com uma vontade jamais tida de estar logo em casa.

aí que peguei o ônibus pra casa ali na rodoviária mesmo, com uma bolsa, uma mochila e uma sacola com travesseiro roupas sapatos. assim, atolada. atravessei uma rua correndo, entrei esbaforida no carro, quase fiquei presa na roleta e sentei no banco alto lá no fundo, ocupando os dois bancos, sem nem me preocupar. ‘ainda bem que tá vazio’, pensei. o ônibus começou seu percurso, passou por buracos, fez curvas e eu sentindo que ia vomitar. mais gente ia entrando e toda vez que ele parava pra pegar os passageiros eu dava uma olhada geral por todo o carro, pra ver se ainda tinha lugar praquelas pessoas sentarem. se não tivesse, teria que me amontoar e espremer em um banco só, fazer o quê? fico puta quando tem uma pessoa com uma bolsinha ocupando um banco que poderia ser meu.

aí que chegou um camarada, falou alguma coisa com o motorista e entrou pela porta de trás. ele carregava um violão, eu imediatamente olhei pro lado de fora, cheia de tralhas e dividir um banco com um cara com mais um trambolho? nem morta. aí ele sentou no banco alto do outro lado, se ajeitou todo e eu, que continuava olhando pela janela, ouvi um acorde. ‘putaquemepariu’, falei baixinho. ele não cantava, só tocava e gemia, como quem não sabe a letra. percebi algumas pessoas incomodadas, uma moça colocou os fones do mp3 no ouvido, uma senhora bufou algumas vezes, e nem era um cara tocando pra pedir dinheiro, o que foi estranho, já que ele entrou de carona. tava só afim de encher o saco mesmo. toda vez que ele acabava uma música, dava uma paradinha, fazendo com que todos pensassem que era o fim, mas não, devia estar pegando inspiração.

ainda estávamos na tijuca e o cara lá, tocando. só não me senti tão mal porque pensei que poderia ser pior, eu poderia estar dividindo um banco com ele, com minha perna servindo de apoio pro violão e tomando uma violonada nos braços de vez em quando. aí que quando estávamos chegando no alto, em uma pracinha que todo domingo rola evento, não sei que tipo de evento, mas tá sempre cheia de gente e eu posso supor que tem distribuição de dinheiro, já que não vejo motivo pra alguém ir naquela pracinha que tem um restaurante falido e meia dúzia de brinquedos enferrujados, enfim, o cara deu o sinal pra descer nessa pracinha. eu juro que pude ouvir alguns ‘aaaahs’ quando ele desceu e nem me senti tão ebozada assim, já que geralmente esse tipo senta do meu lado, puxa assunto, tenta roçar e me acompanha até o fim da viagem.