duas e meia da tarde

eu sempre penso que quando tem alguma coisa errada, não adianta, outras coisas erradas virão. e talvez a palavra chave do final de semana tenha sido essa, erro. nunca tivemos problemas com a equação: jovens amigos solteiros em busca de prazer + viagem + bebedeira, só que o ebó dessa vez foi forte e deu no que deu. na verdade, não é isso que quero contar, e sim sobre um episódio ocorrido dentro do ônibus 234, após duas horas de viagem de miguel pereira até o rio, puta da vida, sem dormir, sem comer, enjoada, e com uma vontade jamais tida de estar logo em casa.

aí que peguei o ônibus pra casa ali na rodoviária mesmo, com uma bolsa, uma mochila e uma sacola com travesseiro roupas sapatos. assim, atolada. atravessei uma rua correndo, entrei esbaforida no carro, quase fiquei presa na roleta e sentei no banco alto lá no fundo, ocupando os dois bancos, sem nem me preocupar. ‘ainda bem que tá vazio’, pensei. o ônibus começou seu percurso, passou por buracos, fez curvas e eu sentindo que ia vomitar. mais gente ia entrando e toda vez que ele parava pra pegar os passageiros eu dava uma olhada geral por todo o carro, pra ver se ainda tinha lugar praquelas pessoas sentarem. se não tivesse, teria que me amontoar e espremer em um banco só, fazer o quê? fico puta quando tem uma pessoa com uma bolsinha ocupando um banco que poderia ser meu.

aí que chegou um camarada, falou alguma coisa com o motorista e entrou pela porta de trás. ele carregava um violão, eu imediatamente olhei pro lado de fora, cheia de tralhas e dividir um banco com um cara com mais um trambolho? nem morta. aí ele sentou no banco alto do outro lado, se ajeitou todo e eu, que continuava olhando pela janela, ouvi um acorde. ‘putaquemepariu’, falei baixinho. ele não cantava, só tocava e gemia, como quem não sabe a letra. percebi algumas pessoas incomodadas, uma moça colocou os fones do mp3 no ouvido, uma senhora bufou algumas vezes, e nem era um cara tocando pra pedir dinheiro, o que foi estranho, já que ele entrou de carona. tava só afim de encher o saco mesmo. toda vez que ele acabava uma música, dava uma paradinha, fazendo com que todos pensassem que era o fim, mas não, devia estar pegando inspiração.

ainda estávamos na tijuca e o cara lá, tocando. só não me senti tão mal porque pensei que poderia ser pior, eu poderia estar dividindo um banco com ele, com minha perna servindo de apoio pro violão e tomando uma violonada nos braços de vez em quando. aí que quando estávamos chegando no alto, em uma pracinha que todo domingo rola evento, não sei que tipo de evento, mas tá sempre cheia de gente e eu posso supor que tem distribuição de dinheiro, já que não vejo motivo pra alguém ir naquela pracinha que tem um restaurante falido e meia dúzia de brinquedos enferrujados, enfim, o cara deu o sinal pra descer nessa pracinha. eu juro que pude ouvir alguns ‘aaaahs’ quando ele desceu e nem me senti tão ebozada assim, já que geralmente esse tipo senta do meu lado, puxa assunto, tenta roçar e me acompanha até o fim da viagem.

1 Resposta para “duas e meia da tarde”


  1. 1 Flavs Julho 11, 2007 às 12:02 pm

    eu te disse que transporte público não é de jesus!


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